Renascere

29 Junho 2006

O hino, senhor juiz

Li há dias que um tribunal recusou a nacionalidade portuguesa a uma pessoa que vive há vários anos no nosso país, alegando que essa cidadã não conhecia o hino. Pergunto, senhor juiz, quantos portugueses saberão a letra do hino, de fio a pavio? Dez, cem, mil?

"A Portuguesa"

I
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar Contra os canhões marchar, marchar!

II
Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O oceano, a rugir d`amor,
E o teu Braço vencedor
Deu mundos novos ao mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

III
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre aterra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

27 Junho 2006

Mais ecos do Mundial

- João Miguel Tavares escreve, no DN de hoje, uma boa crónica sobre o futebol e diz um bom par de verdades sobre a actuação do árbitro no Portugal-Holanda.

- Já o tinha dito e parece que há mais gente que concorda. Scolari e Pinto da Costa são farinha do mesmo saco. Unem os seus arranjando inimigos exteriores. Aqui e aqui.

- Os ingleses já debatem, no Guardian, se podem ganhar a Portugal. e apresentam cinco razões para o optimismo inglês e cinco razões para o pessimismo.

Contradições à Bush

George W. Bush diz que o aquecimento global é um problema. George W. Bush diz que os EUA não ratificam o protocolo de Quioto. Os Estados Unidos têm sete por cento da população mundial e consomem 25 por cento do petróleo mundial, tendo combustíveis muito mais baratos do que os europeus. George W. Bush diz que é preciso deixar de discutir as causas e encontrar soluções. Parece-me fácil Bush contribuir para diminuir a dependência do petróleo. Dahh.

26 Junho 2006

O milagre de Nuremberga

Portugal venceu a Holanda com muito mais coração do que futebol, acima de tudo porque o árbitro e os ditames da FIFA não deixaram que duas das melhores selecções europeias se dedicassem ao que sabem: jogar futebol. Tudo começou no brutal pontapé dado a Cristiano Ronaldo, lance que desorientou a selecção portuguesa, afastando-a do controlo emocional e maturidade que tem evidenciado nos últimos anos. Acho curioso que o senhor Blatter venha agora dar um cartão amarelo a Valentin Ivanov, quando foi a própria FIFA a exigir mais rigor aos árbitros e dar-lhes indicações mais precisas sobre os lances que deseja ver penalizados. E se o senhor Ivanov tivesse seguido à risca as indicações da FIFA mais jogadores teriam sido expulsos.

O problema da FIFA é que há poucos árbitros que saibam realmente de futebol, isto é, que saibam distinguir uma entrada para magoar de uma entrada em que um jogador tenta jogar a bola. Neste Mundial fazer uma falta é quase significado de cartão. Não estou a, nem quero, defender o jogo violento, mas é preciso ter o bom-senso de permitir alguma intensidade, algum confronto, isto claro penalizando sempre quem entra para violentar o adversário.

Da exibição de Portugal – e além de desempenhos individuais brilhantes, como o de Ricardo, Miguel, Ricardo Carvalho e Maniche – nota-se que a selecção tem alma e sorte. E esta é sempre necessária a qualquer campeão. Temos uma certa vantagem psicológica sobre a Inglaterra, uma selecção perigosa que joga à Mourinho. É mais um jogo, é mais uma final.

22 Junho 2006

Foi há 20 anos


"Dez segundos é muito na vida do herói. Diego Armando Maradona dançou e saiu
como um projéctil enlouquecido. Com a bola, o corpo e as velocidades vendeu gato
por lebre a cinco súbditos do Império Britânico e colocou um golo maravilhoso na
história de todos. Foi no México, no campo Inglaterra e Argentina jogavam um
desses jogos a eliminar. Calor, poluição, altitude. Milhões estavam a observar.
Tensão, medo, emoção. Já sabem. Rapidamente, Negro Enrique vê Maradona e
entrega-lhe a bola com um passe curto. O 'Dez' recebeu, de costas para a baliza
contrária, com um inglês de cada lado e ainda no seu meio-campo. Controlou,
girou e meteu-se em contramão numa auto-estrada que só um louco podia percorrer.
Faltavam algo mais de cinquenta metros e muitas curvas, esperavam-no tipos
duros, mas nobres. Começava a grande antologia da finta. Beleza, assombro e um
final útil. Vi-o mil vezes. Dez segundos, dez toques: um herói com o número
dez".
Jorge Valdano, in livro "Sonhos de futebol", descrevendo o melhor golo de sempre, marcado por Maradona nos quartos-de-final do México 86, contra a Inglaterra. Foi há exactamente 20 anos, no dia 22 de Junho de 1986, que 114 580 espectadores presenciaram ao vivo esta obra de arte. Os argentinos até recordam com maior prazer a "mão de Deus", protagonizada por Maradona quatro minutos antes, mas quem gosta verdadeiramente de futebol dará primazia a esta jogada de génio. E hoje Valdano volta a escrever sobre isto no Guardian.

21 Junho 2006

O vício - parte VI


Adriano, o avançado brasileiro do Inter, vai ser a cara da capa europeia do Pro Evolution Soccer 6. A parte 6 do melhor jogo de futebol chega no Outono, diz a Marca.

Capela Sistina futebolística



Na estação de Colónia, na Alemanha, a agência TBWA reinventou para a Adidas o fresco da Capela Sistina. [Dica de Tese e Antítese]. Neste site há também outros trabalhos bem interessantes.

Carioca


Chico Buarque lançou um novo disco. Chama-se "Carioca" e é o primeiro desde 1998. Estou curioso para ouvir. As letras estão aqui.

Poemas de Mundial

Já imaginou um site com poemas sobre o futebol? Está aqui.

A pureza de Messi


A história foi contada no “El País” há dias e ilustra bem a pureza e irreverência de Lionel Messi, jogador da Argentina. Parece que o menino, de 19 anos (completa 20 anos no sábado), não liga grande coisa às hierarquias da bola, isto é, ao estatuto dos companheiros. No primeiro treino com a selecção, em Agosto do ano passado, Messi deu uma série de “nós cegos” na “peladinha”. O adversário era Heinze. Ora, como bem refere o jornalista do “El País”, um central argentino experiente humilhado assim por um puto torna-se “numa máquina de cortar ligamentos”. Moral da história: o treinador ao ver que um dos seus jogadores estava perto de perder a honra e outro perto de ficar com o joelho destruído, mandou Messi ir treinar-se para outro lado. É por estas e por outras que a Argentina está no topo da lista para ganhar este Mundial. Fujamos dela.

Ecos do Mundial


Depois da tempestade, eis a bonança, que é como quem diz depois da trovoada, eis que a Net volta a estar funcional. Já passámos a primeira metade do Mundial – o Espanha-Tunísia de ontem foi o 32º de 64 jogos – e há muito mais para dizer sobre o Mundial:

- Este é, definitivamente, o Mundial dos golos, dos bons golos. O melhor, para mim, foi o do Cambiasso, no Argentina-Sérvia(e pouco Montenegro): 26 passes, inlcuindo o remate final, deram corpo a uma magnífica jogada colectiva.

- Os lances de bola parada, ou jogadas de estratégia como lhe chamam os treinadores, continuam a ser cada vez mais decisivos. E o espaço aéreo cada vez mais disputado. Jordi Álvaro, professor na Universidade Europeia de Madrid, revelou no El País um dado curioso: a média de altura dos jogadores participantes no Mundial de 1930 era de 1,73 m contra os 1,81m de 2006. Mas altura não quer dizer falta de qualidade. “Há alguns anos os altos jogavam nas equipas de basquetebol e de andebol pelo simples facto de o serem, mas hoje em dia, com a proliferação, de jogadores de mais de dois metros só jogam os altos de maior qualidade

- A Espanha despertou neste Mundial, graças a uma qualidade de passe extraordinária, à holandesa. Xavi, Xabi Alonso, Cesc e companhia levaram o modelo Cruyff para a selecção espanhola. E mesmo que não ganhe, a Espanha já ganhou…a admiração de quem gosta de futebol.

- Portugal está finalmente de volta à segunda fase do Mundial, 40 anos depois. A maturidade de uma equipa que sabe o quer dentro de campo e a boa-forma de Figo, Deco e Cristiano Ronaldo são as nossas maiores esperanças. Nos “oitavos”, já se sabe, são os pormenores que tudo decidem.

14 Junho 2006

E viva o Mundial


Eu aqui me confesso perante o mundo. Sou doente pelo Mundial de futebol. De quatro em quatro anos, os sintomas regressam e cada vez com maior intensidade. Cada jogo perdido, seja um Togo-Coreia ou um Espanha-Ucrânia, causam-me suores frios, irritação e um sem número de palavrões silenciosos enquanto vou debitando caracteres sobre assuntos desinteressantes. O Mundial é, pois, uma boa razão para reavivar este blog. Ao fim de cinco dias de jogos, tenho a dizer:

- grande artigo de opinião no Público de ontem, do historiador José Neves, a lamentar a vitória da futebolite sobre o futebol, isto é, do foclore sobre o jogo propriamente dito. “Precisamos de menos futebolite e de melhor futebol. De mais bola corrida e de menos conversa fiada. (…) E em vez dos 900 minutos dedicados ao luxo concentracionário do hotel alemão da selecção portuguesa, precisamos de um canal público que se digne a transmitir um simples jogo de futebol de 90 minutos durante o Mundial”. Concordo a cem por cento. Estou farto do “fait-divers” do emigrante tuga à espera do autógrafo matinal da estrela da selecção.

- Fiquem atentos aos textos do Manuel Alegre no Público.

- Se não têm Sport TV, que tal ver os jogos à borla em http://livefooty.doctor-serv.com/

- Os jogos até nem têm sido espectaculares, mas os golos são muitos (31 em cinco dias) e bons. Gostei especialmente dos golos do Rosicky (o 2-0), do Pirlo, do Ahn, do Kaká e do Frings. Tudo grandes remates de fora-da-área, que a “Teamgeist” e as cautelas defensivas dão mais para isso do que para grandes jogadas de envolvimento.

- No debate entre os scolaristas e os anti-scolaristas, fico no meio. Nem acho que Portugal cumpriu totalmente a sua missão contra Angola, nem acho que devíamos ter dado 5-0. A exibição foi fraca, o resultado foi bom. Destaque-se que começámos melhor do que há dois e quatro anos, mas reconheça-se que precisaremos de muito mais nos próximos jogos. Especialmente de mais ambição e velocidade.

- As críticas de Scolari à imprensa só podem ser entendidas de duas formas. Ou tem péssimo poder de encaixe ou está a recorrer à velha técnica de usar a imprensa como o inimigo a abater, de forma a unir a equipa. Inclino-me mais para a segunda. É a táctica à Pinto da Costa. Por isso, também cada vez mais penso que Scolari e Pinto da Costa têm o mesmo perfil. Não fosse a guerra do Baía e do Quaresma, e o Scolari ainda teria oportunidade de se sentar no banco do Dragão.

- Após cinco dias, nenhum dos favoritos convenceu totalmente. A Argentina e a Itália pareceram-me os mais consistentes. A República Checa voltou a mostrar o melhor futebol.

Cicatrizes de mulher


Um tema especial escrito por uma pessoa especial. Leiam “Cicatrizes de Mulher”, um livro sobre a mutilação genital feminina, de Sofia Branco, jornalista do Público. Vale a pena ver a coragem que uma mulher, Tchambu, teve e tem para denunciar uma prática comum na Guiné-Bissau e em vários outros países. E porque isto não é apenas um assunto de mulheres, aqui fica a dica. Por enquanto só está à venda nos quiosques e nas lojas do Público.