Renascere

29 Março 2006

O menino ou a avó?


O menino quer levar o remédio à avó, mas não pode passar, porque há uma troca de tiros na favela. “E agora, o que eu faço”, pergunta Laranjinha: “Se não levar o remédio, a minha avó pode morrer”. Acerola, o amigo, responde: “Não vai, né? Sua avó é mais velha. Mais vale morrer ela do que você”. A cena pertence à série “A Cidade dos Homens”, uma série televisiva (um seriado) dos mesmos autores do filme “Cidade de Deus”, mais uma sobre as favelas do Rio de Janeiro. Esta é uma entre muitas cenas que mostram como na favela se vive noutro mundo. Gostei particularmente do episódio realizado por Fernando Meireles, em que se comparam as angústias e desejos do menino da favela, do menino da classe média-baixa e do menino rico. Agradeço à Carne e Osso a dica e o DVD. Quem quiser saber mais, pode visitar este site.

24 Março 2006

“Colisão” ou “camaleão”?

Vi, finalmente, o “Colisão”, que recebeu o Óscar de melhor filme do ano. Gostei bastante e percebo a atribuição do prémio. Não que seja muito melhor do que o Brokeback Mountain e Munique (não vi o Capote ainda), mas talvez trate de um tema mais próximo dos americanos, com o qual se cruzam (e nós também) todos os dias. Sem ser brilhante, é um filme muito pedagógico sobre o racismo, onde o que parece não é e se prova que também o racismo é uma realidade dinâmica. São muitas as personagens-camaleão, que ou tropeçam nos preconceitos que apontavam aos outros ou esquecem o preconceito em favor de um sentimento de humanidade que não lhes era reconhecido. Não tem grandes interpretações individuais. Vale pelo conjunto e pela riqueza sociológica. Malditas “identidades assasssinas”.

17 Março 2006

Espanha tem outro encanto

Agora está na moda falar para os jornais espanhóis. O treinador do Benfica,Ronald Koeman, deixou de prestar declarações para os jornalistas portugueses, mas deu uma entrevista a uma televisão catalã, e Ricardo Quaresma, jogador do FC Porto, também falou a um jornal espanhol, apesar de para os jornais nacionais valer um "black-out" imposto pelo clube. Segue-se uma crónica publicada num jornal desportivo, mas que se aplica também na perfeição ao novo Presidente, Cavaco Silva, cuja primeira, e até agora única, entrevista após a eleição foi dada a um jornal espanhol, o ABC.

Se habla español

Confesso que às vezes tenho alguma inveja dos espanhóis. Não é frequente, mas acontece às vezes, normalmente quando alguém se lembra de desenterrar aqueles estudos oficiais da Comichão Europeia segundo os quais, invariavelmente, se conclui que eles ganham muito mais e gastam muito menos, que comem muito mais e engordam muito menos, que bebem muito mais e se embebedam muito menos e que se divertem muito mais e morrem muito menos do que nós. É claro que também têm que gramar com Júlio Iglésias e mais o filho, e têm que comer "paella" desde pequeninos, e têm que ver tudo o que é filme ou série estrangeira dobrada em castelhano, e ainda mantêm uma relação explosiva com a ETA, mas os que sobrevivem a isso, bem, os que sobrevivem a isso são uns privilegiados quando comparados connosco. Querem mais exemplos? Pois bem, qualquer jornalista espanhol pode pegar no seu telemóvel - "móbil", como eles dizem - ligar para qualquer jogador ou treinador em Portugal e falar alegre e trauliteiramente com ele sobre tudo e mais alguma coisa. Pode parecer simples, mas para um jornalista português, nos tempos que correm, até um comentário sobre
o tempo - este sol é bom para as gripes - pode ser interpretado como uma provocação. Para os espanhóis não há "blackout", até porque eles não percebem patavina de inglês e não têm muita paciência para esse tipo de mariquices. Por cá, provincianos como somos, desfazemo-nos em vénias quando nos falam castelhano do outro lado do telefone. Trocamos a contenção pela incontinência verbal, temperamos a conversa com uma pitada de "salero" e muitos iis, alguns "porsupuestos" e "todavias", falamos na nossa "enorme ilusion", e ainda terminamos as conversas com um generoso "muchas gracias" e outro "até siempre".
É claro que este tipo de entrevistas representam um risco enorme.
Afinal, mal intencionados como são, os jornalistas portugueses podem sempre fazer interpretações abusivas e distorcidas das palavras publicadas em castelhano num jornal espanhol qualquer."

Jorge Maia, jornalista de
"O Jogo", na edição de 17 de
Março de 2006

16 Março 2006

A malandra da Ópera

Comprovei que, definitivamente, não sou fã de musicais. Fui ver a Ópera do Malandro. Gostei bastante das actuações de quase todos, exceptuando o Nuno Leal Maia, um absoluto desastre a cantar, mas faltou-me aquele encantamento dos grandes espectáculos. E como vi que outros adoraram, o problema é mesmo meu, até porque aprecio muito o Chico Buarque. Paciência.

01 Março 2006

Bem viver

“Morrer de ter vivido”.

Perdi o rasto ao autor da frase original, citada pelo neurologista João Lobo Antunes, numa entrevista ao Carlos Vaz Marques, mas gosto desta ideia. É uma das boas definições de objectivo de vida. O que será ser feliz se não morrer de ter vivido, de ter bem vivido?