Renascere

26 Setembro 2005

A Babá estava à minha espera

Lisboa, 25 de Setembro de 2005. Acordo cedo. Muito Cedo. São sete e meia. Visto os meus calções azuis, t-shirt branca e os ténis de corrida. Coloco o dorsal ao peito (um contra-senso!!!) e por causa dele vou de borla no metro. Não sou o único “atleta-amador-maluco-que-se-levanta-cedo-para-correr-oito-quilómetros”. Há centenas de pessoas e de todos os tipos. Casais de namorados, quarentões, avôs, pais e filhos, grupos de adolescentes. Chegado ao Parque das Nações, apanho o autocarro para o meio da ponte. Segue-se uma hora e meia de espera, ao sol, sentado no tabuleiro, rodeado de milhares de pessoas. “O que fazem estes malucos aqui?”, questionar-se-ão os passageiros dos automóveis que viajam na faixa contrária. Uma manhã diferente, saudável. Um desafio, um teste à resistência física. Finalmente é hora de partir. Nos primeiros metros, o engarrafamento de gente é tal que não dá para correr. Sucedem-se os encontrões. Sete minutos depois da partida oficial, passo finalmente a linha de partida. Há muita gente de facto. Inicio a contagem no meu relógio. E aí vou eu. Passo de corrida constante, respiração bem controlado, e encarno o papel de Carlos Lopes. O sol queima. Passaram três quilómetros. Já bebia qualquer coisa. Mas ainda falta bastante para o reabastecimento. Cinco quilómetros: está quase a acabar o percurso na ponte. Curvamos à direita e eis as desejadas garrafas de água. Tomo uma autêntico banho. Sinto-me revigorado. Já falta pouco. Só mais um bocadinho. Eis a rotunda, a descida para o Parque das Nações e passo a porta Norte. A meta está quase à vista. Estou a rebentar de calor. Mas aguenta, coração. Está quase. Já vejo a meta. É hora do sprint final, do último esforço, do último round contra o relógio. Vou conseguir ficar pelos 47 minutos. Uma média de 10,21 km/h. Óptimo. E, repente, ali está ela. Babá. Bárbara Guimarães. Sorri na minha direcção. Acena. Abre os braços. “Será para mim?”, questiono-me, quase alucinado pelo cansaço. Olho para trás e vejo Carrilho. Agora percebo. Viro-lhe as costas. Não o cumprimento. Eu é que mereço uma recepção da Bárbara… e não ele.

19 Setembro 2005

Vozes do mar

Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?......
Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

Florbela Espanca
"Poesia Completa"

15 Setembro 2005

Cinderella Man

Gostei muito. É o segundo filme que me encanta sobre uma personagem do mundo do boxe, um desporto que abominava mas que cada vez respeito mais. Depois do brilhante “Million Dollar Baby”, de Clint Eastwood, gostei muito de ver o “Cinderella Man”, do Ron Howard. Uma história sobre um homem de princípios que marca também pela dura e crua descrição do modo de vida de milhões de americanos durante a Grande Depressão. É claramente candidato a Óscares. O site oficial de James J. Braddock, que inspira o filme, está aqui.

14 Setembro 2005

Rodízio de peixe

Ora aí algo que nunca me tinha passado pela cabeça comer. E comi. Soube bem. Foi em Setúbal, num café/restaurante, simples, caseirinho e barato. Embora sem grande variedade (havia sardinhas, peixe-espada, sargo, lulas e pouco mais), o peixe era fresquinho e saboroso. O melão como sobremesa soube pela vida. Para quem quiser experimentar, aqui ficam as coordenadas. Chama-se restaurante Cataplana e fica mesmo à entrada de Setúbal. Saindo da auto-estrada, segue-se em frente no Jumbo, passa-se uma rotunda, com um monumento esquisito, e o restaurante fica uns metros mais à frente, à esquerda, na zona em que a estrada começa a descer para o cais de Tróia.

08 Setembro 2005

Imaginação "marota"








07 Setembro 2005

Futebol misto?

Também no “El País”, vejo uma notícia muito curiosa, que abre um debate interessante: A Federação Andaluza de Futebol aprovou, no mês passado, o futebol misto em todas as categorias etárias. As equipas podem ter 50 por cento de jogadores-homens e 50 por cento de jogadores-mulheres. Mas até agora nenhuma equipa masculina inscreveu mulheres.

Lembro-me de ter discutido este assunto, há algum tempo, com duas feministas convictas. Continuo na minha: é bom (e correcto) que a lei não impeça o futebol misto, mas é preciso que as coisas aconteçam naturalmente. São as mulheres que, quando se acharem em condições, tomarão a iniciativa de jogar com e contra homens. Não vale a pena forçar. Até porque um dos princípios do desporto, é a competitividade. Ninguém participa para perder. E neste momento haverá poucas (ou nenhumas) mulheres em condições de competir em igualdade de circunstâncias com os homens.

O filósofo-ciclista

Pedro Horrillo é espanhol, ciclista, estudante de filosofa (não sei qual é o actual estado dos estudos). Sempre que há grandes provas de ciclismo escreve no “El País”. Como actualmente está a participar na Volta à Espanha, as crónicas ainda ganham mais qualidade. Um exemplo:

Rios e facturas

Vaya día, si no estuviese ya acostumbrado, hubiese pensado que ayer se acababa el mundo. La gente atacaba y atacaba sin medida, y sin pensar que ayer, jueves, no estábamos más que en la mitad de la primera semana de la Vuelta. Pues anda que no es esto largo.

Un mensaje para los que vieron la carrera por televisión: os perdisteis lo mejor, os lo aseguro. Ayer fue uno de esos días en los que la retransmisión no puede hacer justicia a lo ocurrido. Limitaciones del medio. La carrera salió desbocada, y se fueron sucediendo diferentes situaciones en las primeras tres horas que hicieron que el ritmo nunca decayese y que la guerra fuese continua. Yo creo que hubo tregua al paso por Teruel porque hasta entonces ya había pasado de todo, así que, por no repetirse en exceso, lo mejor era ir tranquilos hasta las subidas finales y disputar entonces la etapa como una llegada cualquiera de montaña, como si nada hubiese pasado antes.

En ese viaje de Sierra en Sierra (atravesamos la Serranía de Cuenca, la Sierra de Albarracín y la Sierra de Gudar, todas ellas en los Montes Universales) pasamos a velocidad de vértigo por las fuentes del río Tajo. Al ver el cartel pensé lo lejos que quedaba Lisboa, el punto donde el río desemboca en el Atlántico. En línea recta no lo sé, y por carretera tampoco, pero el cauce del río son ni más ni menos que 1.120 kilómetros, ahí es nada.

Pues para que se hagan una idea de lo largo que es esto, nosotros recorreremos en estas tres semanas tres veces esa distancia. Es decir, que si nos pusieran una carretera al lado del cauce del río (pasando por la Alcarria, Aranjuez, Toledo, Talavera de la Reina, y atravesando Portugal de Este a Oeste) tendríamos tiempo para ir desde las fuentes hasta Lisboa, volver, y repetir el camino de ida. ¿Es o no esto largo?

Solo que nosotros, al contrario del río, que se va haciendo cada vez más grande y fuerte a medida que van pasando los kilómetros y se le van uniendo afluentes, vamos perdiendo unidades día a día (desconozco el dato, pero ayer perdimos unos cuantos, seguro). El río empieza tímido, luego se pone a crecer y a precipitarse con fuerza por grandes desniveles, y al final, ya consagrado, alcanza una etapa tranquila y reposada que termina en el océano. Nosotros empezamos orgullosos y altivos, venimos a comernos el mundo. Somos doscientos, el pastel no llega para todos, pero eso no importa, para mí ya llegará, te dices. Pero el día a día va pasando factura, y algunos, insolventes, no pueden hacer frente a las deudas y tienen que optar por el ingrato abandono. Encontrarán la tranquilidad, supongo, pero eso ya en casa.”

06 Setembro 2005

Fotos, boas fotos

A fica é do Ponto Media: 5o anos de World Press Photo.

05 Setembro 2005

Amoras

Basta sair uns quilómetros de Lisboa e estamos na aldeia. Ali para os lados de Mafra, comi amoras. Que saudades das amoras, de as colher à beira da estrada (mais caminho do que outra coisa), do cuidado em não me picar nas silvas, do receio de encontrar uma cobra. E que boas são as amoras, madurinhas, a desfazer-se na boca. Nem uma sobrou. Adeus tarte, adeus bavaroise.