Renascere

25 Julho 2005

Homenagem ao génio da bola

O anjo das pernas tortas

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!

Vinicius de Moraes

O cacique

Neste fim-de-semana, fui à terra. E a terra está pejada de cartazes do cacique que durante mais de duas décadas enriqueceu à custa do povo de um concelho vizinho. Começou sem nada. Tinha uma serração às portas da falência. Foi eleito presidente da câmara e o património do cacique foi-se multiplicando. A técnica é simples. Compra-se um terreno no meio do nada por pouco dinheiro. Abre-se uma estrada, com dinheiros públicos, e o terreno valoriza. Logo depois, vende-se. E mete-se ao bolso. Outra técnica é o frete ao construtor civil. Licenças facilitadas, poucas regras, muita amizade e muito dinheiro metido ao bolso. Os prédios multiplicaram-se no centro da cidade e algum povo – cego, ignorante – elogia o desenvolvimento, apesar de três quartos da população não terem água e saneamento básico – estamos no século XXI, sublinho. O senhor cacique tem muita “lábia”, como por lá se diz, e vai oferecendo uns almoços aqui, umas palavrinhas simpáticas ali, uns pontapés aos inimigos e perseguições a quem o contraria. E o povo fica à mercê. O património do cacique está à vista. O cacique e a família vivem bem, cheios de carros, casas, quintas. Esgotada a mina de duas décadas e com os cofres da câmara vazios, o cacique decidiu agora candidatar-se à autarquia da sua terra Natal. A campanha é farta. Viagens de helicópteros, para comprar o povo, jantares “à grande e à francesa”, promessas de pontes, ameaças veladas aos opositores, garantia de facilidades para quem o ajudar. O populismo abjecto no seu pior estilo. O mais grave é que o povo até vai na conversa. Só espero que no dia 9 de Outubro prevaleça o bom-senso. Seria uma grande vitória para Portugal. Uma esperança no futuro deste país. Uma prova de civismo. Cada cacique “despachado”, de preferência derrotado nas urnas, vale mais do que qualquer Ota ou TGV.

23 Julho 2005

Parabéns, mãe

M - O - T - H - E - R
"M" is for the million things she gave me,
"O" means only that she's growing old,
"T" is for the tears she shed to save me,
"H" is for her heart of purest gold;
"E" is for her eyes, with love-light shining,
"R" means right, and right she'll always be,
Put them all together, they spell "MOTHER",
A word that means the world to me.

Howard Johnson (c. 1915)

Eles "andem" aí

Não concordo com algumas das ideias expressas num artigo de São José Almeida, no Público de hoje, mas há uma passagem certeira e, especialmente, engraçada: "E satisfeitos e contentes com a sua sapiência, a classe dos economistas, esse novo tipo de guru português, desdobra-se em palestras e monólogos, defendendo teses que não pratica quando partilha responsabilidades, a debitar sabedoria na comunicação social, numa espécie de doutrinação tele-evangelista a múltiplas vozes sobre como o caminho é estreito, como só há uma via para achar a luz ao fundo do túnel, como a infalibilidade das suas palavras é certa, como não há alternativa, numa nova versão da estafada receita dos amanhãs que cantam".

22 Julho 2005

A pergunta que se impõe

Quem é que comprou terrenos na Ota e agora está à espera do aeroporto, para beneficiar da valorização? Devem ser muito poderosos, para os Governos de um país pobre e com poucos recursos insistirem, sucessivamente, na construção do novo aeroporto.

18 Julho 2005

Para ti, meu amor

Bella

Bella,
como en la piedra fresca
del manantial, el agua
abre un ancho relámpago de espuma,
así es la sonrisa en tu rostro,
bella.

Bella,
de finas manos y delgados pies
como un caballito de plata,
andando, flor del mundo,
así te veo,
bella,

Bella,
con un nido de cobre enmarañado
en tu cabeza, un nido
color de miel sombría
donde mi corazón arde y reposa,
bella.

Bella,
no te caben los ojos en la cara,
no te caben los ojos en la tierra.

Hay países, hay ríos,
en tus ojos,
mi patria está en tus ojos,
yo camino por ellos,
ellos dan luz al mundo
por donde yo camino,
bella.

Bella,
tus senos son como dos panes hechos
de tierra cereal y luna de oro,
bella.

Bella,
tu cintura
la hizo mi brazo como un río cuando
pasó mil años por tu dulce cuerpo,
bella.

Bella,
no hay nada como tus caderas,
tal vez la tierra tiene
en algún sitio oculto
la curva y el aroma de tu cuerpo,
tal vez en algún sitio,
bella.

Bella, mi bella,
tu voz, tu piel, tus uñas
bella, mi bella,
tu ser, tu luz, tu sombra,
bella,
todo eso es mío, bella,
todo eso es mío, mía,
cuando andas o reposas,
cuando cantas o duermes,
cuando sufres o sueñas,
siempre,
cuando estás cerca o lejos,
siempre,
era mía, mi bella,
siempre.

Pablo Neruda

15 Julho 2005

Coimbra das lágrimas

Neste fim-de-semana, regresso à Lusa Atenas. Como vou à Quinta das Lágrimas, pensei que era adequado recuperar um pedacinho d’ “Os Lusíadas”:

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saüdosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

Palavra de vida ou de morte

Preferem chamar a alguém camarada ou irmão? A componente ideológica, claro está, pesa na escolha. O “camarada” é uma saudação muito comunista, o “irmão” tem o seu quê de religioso. Mas há 30 anos em Angola esta escolha era a senha de passagem para o posto de controlo seguinte ou então para a morte. O jornalista polaco Ryszard Kapuscinski conta no livro “Mais um dia de vida, Angola-1975” como esta escolha era uma espécie de roleta russa. Na conturbada Angola, gritar “camarada” era uma óptima notícia quando os soldados estavam pela frente eram do MPLA. O camarada soava como um abraço, era garantia de simpatia, comida, paz, livre trânsito para prosseguir viagem. Pelo contrário, um dito “camarada” perante um posto de controlo dominado por tropas da UNITA ou da FNLA era o passe para a tortura ou a morte.

14 Julho 2005

Contradições

Um destes dias, ouvia a escritora espanhola Rosa Montero no “Pessoal e transmissível”, da TSF, essa pérola da rádio portuguesa. Dizia ela que o ser o humano é contraditório por natureza. E dava o exemplo do pai, simultaneamente toureiro e grande defensor do animais. Lembrei-me destas palavras nos últimos dias e, certamente, vou continuar a fazê-lo. Lamentamos (e bem) os atentados em Londres, fazemos minutos de silêncio pelas vítimas. Mas esquecemos o Darfur, o Iraque, o Afeganistão, and so on...

Será?

Muitos portugueses passam o ano inteiro a olhar de soslaio os pretos, a catalogá-los como criminosos, preguiçosos, mal-cheirosos. E depois passam os meses de Verão na praia, a tostar, para ficarem com a pele morena, isto é, preta. Será inveja?

13 Julho 2005

John Cage

Perdi um pouco o interesse pela série “Ally McBeal”. Foi-se tornando demasiado lamechas. Mas de vez em quando não resisto a ver. John Cage é um dos meus personagens de televisão favoritos. O ar lunático, a argumentação genial em tribunal, a insegurança nas relações interpessoais, a imaginação, aquela gaguez… cómica. Brilhante.

Proposta de casamento

Tomava o meu café ao balcão. Admito que o recente corte de cabelo acentuava o meu ar nórdico. Ao lado, um homem pergunta-me: “‘falax’ russo?”.
- “Não”, respondo, “sou português”.
- “Parece russo”, diz ele, “português é moreno”.
Rio-me. Viktor apresenta-se. É ucraniano, imigrante em Portugal há cinco anos. A conversa dá um salto.
- “És solteiro?”, perguntou-me. “Sim”, retorqui.
- “Tenho filha de 20 anos, bonita. Estuda para médica na Ucrânia. Quer vir para Portugal…”

Conversas de loucos I

“Que é isto Zé Manel? Por amor de Deus, só podes estar louco”, grita ela, veemente, enquanto aponta para o pára-choques do carro, novinho em folha. A mulher quase agride o marido. No pára-choques, há um pequeno risco. Como um risco microscópico põe em risco um casamento

12 Julho 2005

Renascer

Perdi-me na estrada algures. Deixei-me arrastar pela corrente. Perdi a alegria. Escondi-me do mundo. Mas quero voltar. Quero voltar a rir. A acreditar. A correr atrás da bondade. A ter aquele brilho nos olhos. É hora de renascer. Despindo as roupagens da desilusão e mantendo no coração o amor e a amizade que me ampararam nesta caminhada pelas trevas.

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade